Devorando Quixote

Aceitar Quixote hoje é regurgitar de nosso sagrado grito.

Descrição

Devorando Quixote é a continuidade do trabalho de pesquisa de linguagem da cena contemporânea. O espetáculo visa criar um ritual cênico multimídia, uma (sub) versão brasileira e antropofágica de Dom Quixote, misturando elementos da performance, body art, teatro-dança e encenações de cunho pós dramático e o rito.

No compromisso com o terreno limite, incerto e poético, redesenha a obra de Miguel de Cervantes, mas provocando aqui um espetáculo com força nos elementos simbólicos, com carregadas imagens vindas do inconsciente, buscando resultados contundentes e não só meramente reflexivos. A performance apresenta uma dramaturgia dos sonhos, composta de quadros cênicos que se sucedem e se justapõem, trazendo a releitura devorada de Quixote, visando discutir a insatisfação humana versus o terreno do sonhador e do visionário.

Devorar o mito quixotesco é propor um jogo lírico de fricção entre Alice, uma vítima do câncer, que no limite da dor, acessa o mito de Quixote e outros personagens da obra de Cervantes, sempre num jogo ambíguo entre realidade insuportável e o sonho necessário.

Aqui a realidade não é primordial, mas secundária. Para tanto, o trabalho flerta com imagens e ações vindas do cruzamento entre elementos míticos da cultura brasileira, africana e espanhola…Num labirinto de possibilidades, busca um outro tipo de comunicação, mais periférica e subliminar, que possibilita espelhar o caos do cotidiano, espaço abstrato e mental-inconsciente, que aponta a encenação para um território virtual, com o uso de recursos de multimídia, com projeções de imagens pré gravadas e em tempo real. O espaço virtual acaba assumindo-se como equivalente do “modelo” de ecoar e desdobrar a realidade-palco com a realidade-tela, em “planos” simbólicos e outras realidades.

Essa performance-ritual pretende fazer “recortes” de culturas, sincretismo religioso, hibridismo: procurando “abrir portas fantásticas” e personagens mágicos através do uso dos objetos surreais, indumentárias, sons, imagens, movimentos que não se completam e que são, as vezes antagônicos! Criando linhas de entendimento fragmentadas e hiper-textuais, o espetáculo propicia um enfrentamento com o mundo doente e linear, um mundo que pede atos heroicos, que são os únicos capazes de dizer algo em uma época em que tudo tende a ser transformado em mercadoria. Onde tudo tem preço e a própria ideia de valor moral, ético ou afetivo parece já não significar nada.

Rompendo com seu cotidiano e saindo em busca de aventuras, Alice e Quixote representam a busca de um outro mundo que seja diferente da monotonia de passar dias à espera do inevitável fim. As personas resistem em morrer, pretendem viver e viver com a máxima intensidade. É nesse caminho da obscuridade que o inusitado se apresenta e o desfecho é reenviado ao expectador em mais puro caos; uma forma de lidar com certas feridas inesperadas.

Em “DEVORANDO QUIXOTE“ acreditamos no trânsito livre de signos: Re-significar é Re-poetizar!, provocando um subversivo sentido de radicalidade como passe-livre para nossas guerras contra moinhos cotidianos, amores impossíveis, doenças sem cura, deuses ausentes!

Aceitar Quixote hoje é regurgitar de nosso sagrado grito.

Ficha técnica

Direção: Marcio Pimentel e Marcelo Denny
Elenco: Carol Pizan, Cauê Pimentel, Edimar Costa, Gal Quaresma e Thiago Amaral

Assistir peça

Este vídeo faz parte do espetáculo cênico performático "Devorando Quixote", que faz parte da pesquisa de conclusão do curso de Rádio e Tv, da aluna Sarah Carvalho, intitulada "